Inspiração, produtividade e Bossa Nova


Aqui em Campinas faz uma agradável tarde de sol, embora o relógio, sério como um chefe de escritório à moda antiga, com suspensórios e gravata borboleta, faça questão de apontar que já é noite, pois são 18h38min. Eu, que acabei de voltar à minha mesa (estava dirigindo, ouvindo Bossa Nova no rádio do carro) tendo a discordar. É uma linda tarde de verão! A temperatura está agradável, há uma suave brisa no ar e nela só faltou o cheiro de sal, vindo do mar (Bossa Nova faz isso comigo, imediatamente penso em praia). Ainda não é noite! Resolvo ignorar a cara feia e inflexível do relógio, com suas contradições de horário de verão, e continuar nesse clima, enquanto trabalho. Aliás, acesso no computador o site jazzradio.com (você conhece? é ótimo, gratuito, com quase quarenta canais e vários tipos de jazz) boto fones de ouvido e escolho justamente o canal Bossa Nova. Pronto! Já tem alguém cantando, em inglês e português, "Ela é carioca". Faço uma careta desafiadora para o relógio e começo a trabalhar. Antes que você comece a questionar minha sanidade, acho melhor esclarecer que estou sozinho, neste momento. Menos mal, né? :) Esse breve episódio que vivenciei trouxe-me a ideia de compartilhar algumas reflexões. Quem sabe você as ache oportunas? Assim: acredito que a gente deva conscientemente encontrar maneiras de entrar no estado de espírito (ou de mantê-lo) mais propício para as coisas que se propõe fazer. Não deixar ao acaso; mas intervir, escolher, provocar o que lhe deixa mais disposto, feliz, focado, atento, relaxado, sereno ou qualquer que seja o humor mais adequado à tarefa ou momento que tem diante de si. Não me refiro apenas a estar, de fato, presente (algo que já é muito importante e nem sempre praticado) mas a estar presente da melhor forma possível. De procurar criar o clima interno favorável, independentemente do externo estar diferente ou de alguém lhe dizer o contrário. Por experiência própria, afirmo que pode ser muito útil descobrir formas de alcançar o estado mental desejado, para certas situações. Eu penso muito em filmes, sabe? Quase sempre me lembro de alguma cena para ilustrar um ponto de vista ou momento específico. Talvez, por isso, usá-los em meus treinamentos e palestras, escrever livros e mesmo criar cursos inspirados em filmes, como o Cinema & Inspiração*, tenha sido algo natural, para mim. *Se você ainda não conhece Cinema & Inspiração - dê um soco na cara do medo e seja o protagonista de sua própria vida, meu curso online inspirado em filmes, clique aqui e veja que proposta diferente! Pois bem, há uma cena de Colateral que me vem à mente, sobre esse assunto. Logo no começo do filme, um atento motorista de táxi chamado Max, interpretado por Jamie Foxx, pega uma corrida, atendendo a uma passageira que havia sido negligenciada por outro carro.

Durante o trajeto, eles travam uma conversa interessante e, em certo momento, Max mostra uma foto contendo uma paisagem marítima, que mantinha diante de si. Diz à sua passageira (personagem da Jada Pinkett Smith, a esposa do Will Smith) que sempre que está ficando estressado com o trabalho, olha para a foto e, em instantes, encontra a calma necessária para prosseguir, em meio ao trânsito pesado. Aquilo funcionava como um refúgio para sua mente. Também tenho recorrido a um artifício semelhante. Por diversas vezes, em situações de estresse, imagino-me sentado em uma cadeira, em uma praia específica em que estive durante certa tarde, há alguns anos. Resgato da memória o maior número de detalhes de que posso lembrar-me e, com a imaginação, completo o que faltaria, com tanta nitidez quanto possível: a luz do sol refletindo no mar, três peixes que passam pela transparência de uma onda, crianças brincando na água rasa, à minha direita. Recordo-me também de sensações, como a textura da areia úmida em meus pés descalços, os cheiros de maresia, protetor solar e camarão frito misturados, a brisa fresca soprando, a calma e bem-estar que senti naquele momento. Tento, em instantes, reproduzir tudo em minha mente, como se lá novamente estivesse.

Então, a mágica acontece. Sinto-me sereno e relaxado. Aos poucos, percebo a frequência dos batimentos cardíacos e mesmo a pressão arterial baixarem. É tranquilizador e reconfortante. É claro que nem sempre a gente consegue ter o controle de tudo, e há momentos de maior ansiedade; mas, por várias vezes, esse exercício funcionou muito bem para mim. Em outras situações, quando quero estimular a criatividade ou concentrar-me em uma tarefa, música tem ajudado. Não qualquer música: mas o tipo que considero mais adequado ao desafio que tenho pela frente. E você? Tem alguma técnica ou recurso que utiliza? O que lhe traz uma sensação de tranquilidade e paz? O que favorece sua criatividade? Como você consegue ser produtivo e ter mais foco? Se é bem verdade que nem sempre conseguimos modificar o ambiente externo em que estamos, internamente podemos escolher atuar. Isso pode fazer MUITA diferença. Afinal, como diz T. Harv Eker, "Seu mundo interior cria seu mundo exterior." Comece a prestar mais atenção ao que funciona melhor para você. Evidentemente que tudo isso é um processo muito pessoal. O que me estimula e faz bem, talvez possa causar o efeito oposto em você, e vice-versa. Mesmo que possa parecer um pouco estranho para outras pessoas, busque fazer o que lhe faz bem, em cada situação. O que lhe INSPIRA? Lógico que não estou falando de fugir das responsabilidades nem desrespeitar o espaço dos outros, nesse processo. Você entendeu, certo? A principal ideia que queria dividir com você é esta: se não estiver habituado a, propositadamente criar o clima interno mais benéfico para você em situações específicas, pense em como pode passar a fazer isso. Inspiração não é coisa só de poetas, artistas ou músicos. Não precisa ser fruto do acaso ou golpe de sorte. É algo que você pode deliberadamente provocar. Pretendo trabalhar até mais tarde, hoje. Se achar que manter as sensações do fim de tarde ensolarado que desfrutei há pouco me deixará mais produtivo e focado, é o que farei. Mesmo que o relógio insista em apontar que já é noite. Continuarei escutando Bossa Nova (hoje, é o gênero que escolhi) e darei o melhor de mim, no que fizer. Ah! Que bacana! É o próprio Tom Jobim cantando essa, que está começando...

Douglas Peternela


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