Ela queria curtir as Ilhas Gregas, mas acabou sofrendo um sequestro.


Você já escutou uma história que alguém lhe contou sem maiores pretensões, mas que acabou sendo uma lição, para você? Às vezes, um episódio sem muita importância para seu próprio protagonista pode ficar guardado na mente de quem o ouve, por muito, muito tempo.

Foi o que aconteceu comigo. Anos atrás, conheci uma mulher que me contou um fato ocorrido em sua vida que me impressionou bastante. Tanto, que nunca mais esqueci essa história, que agora vou dividir com você.

Estávamos em um restaurante, e enquanto esperávamos o pedido, falamos sobre vários assuntos. Em certo momento, a conversa passou a ser sobre viagens e locais interessantes para conhecer. Quando mencionei as Ilhas Gregas, ela contou que esse já tinha sido o destino de uma viagem sua.

Fiquei admirado, disse-lhe que tinha muita curiosidade sobre essa região e, empolgado, perguntei se era tudo tão bonito quanto nas fotos que já tinha visto.

- Sabe que nem sei dizer?

Fiquei atônito com essa resposta e, obviamente, pedi uma explicação.

Então ela contou que, na época, estava em um relacionamento amoroso conturbado e que, daquela viagem, só se lembrava de ter passado o tempo todo discutindo por telefone com seu namorado, aqui no Brasil.

Impressionado, quis saber se realmente eu tinha entendido direito:

- Peraí, você estava nas Ilhas Gregas, em lugares paradisíacos, com paisagens que parecem pôster de agência de viagens, e está dizendo que não consegue me contar NADA de lá porque estava com uma crise de ciúmes ou algo assim?

Ela confirmou. Com o olhar meio distante, disse que não saberia descrever uma só paisagem daquela região, porque simplesmente não se recordava de nenhum detalhe. Sua atenção não estava em nada à sua volta, por mais espetacular que fosse.

Fiquei intrigado o resto do dia com esse acontecimento. A viagem de férias que minha amiga fez foi fruto de uma escolha. Ela tinha um interesse antigo por aquela região da Europa e esperara por essa oportunidade durante bom tempo. Não se tratava de um compromisso a que se vai obrigado, para um destino que só provoca indiferença. Ela queria ir às Ilhas Gregas e inclusive gastou um bom dinheiro para isso.

Então, por que não conseguiu sequer aproveitar a beleza que estava ali, ao seu alcance?

Acontece que aquela mulher inteligente e culta, profissional respeitada em sua área, com domínio de alguns idiomas e estudos fora do país, não fora sequestrada por malfeitores em busca de um resgate, como você talvez tenha pensado, pelo título deste artigo. Ela sofreu o que o autor Daniel Goleman chama de sequestro emocional.

Sequestro Emocional: quando as emoções tomam conta da razão

O sequestro emocional acontece quando a emoção toma conta da razão, conduzindo seu comportamento e fazendo você agir de um jeito que não faria, normalmente. Dura apenas alguns segundos, suficientes para que depois a pessoa arrependa-se do que disse ou fez. Você sabe como é. Sendo humano, é muito provável que já tenha passado por uma situação assim.

É perfeitamente normal sentir emoções como raiva, medo ou tristeza, diante de certos estímulos. A questão é como lidar com elas. Ser emocionalmente inteligente não é algo diretamente associado ao nível intelectual, cultural ou de escolaridade. Tem muita gente por aí com vários diplomas que tem a inteligência emocional de um garotinho de 8 anos.

Voltemos ao caso de minha amiga. Quando soube do fato que deu início ao episódio todo, aconteceu o sequestro emocional. Sem sequer parar para pensar, discutiu muito por telefone com o namorado, falando-lhe poucas e boas, perdendo completamente a calma e a razão. Se esse sequestro durou segundos, o que veio a seguir foi pior e bem mais duradouro.

Ao ocupar seus pensamentos praticamente o tempo todo com as circunstâncias que causaram os problemas de seu relacionamento amoroso, ela alimentou sentimentos negativos, que exerceram efeito nocivo em seu humor e percepção. Em situações assim, o nível de cortisol, conhecido como o hormônio do stress, aumenta significativamente; os batimentos cardíacos ficam acelerados e o corpo, em estado de alerta. Prontinho para curtir as Ilhas Gregas, não acha?

Dominada por esse estado emocional alterado, aquela jovem mulher decidiu ligar inúmeras vezes para o namorado, para discutir a relação. É o equivalente a escolher continuar sequestrada. O resultado disso, foi deixar de aproveitar uma viagem que poderia ter sido incrível, em um país com grande beleza natural e cultura peculiar. Logo, as memórias que possui do que deve ser um dos lugares mais bonitos do planeta são compostas apenas por mágoa, ressentimento e momentos ruins.

Afinal, é assim que a coisa funciona: nossos pensamentos geram sentimentos, que, por sua vez, afetam nossas ações. Os resultados que obtemos vêm justamente da maneira como agimos.

Seu mundo interior cria seu mundo exterior

Tenha isso em mente: seu mundo interior cria seu mundo exterior. Se você estiver debatendo-se num mar de culpa, mágoa ou outros sentimentos negativos, tudo ao redor parecerá ruim ou sem graça.

O contrário também é verdadeiro: se você cultivar dentro de si esperança, otimismo e outros sentimentos positivos, qualquer lugar, por mais simples ou comum que seja, poderá ser muito agradável. Até aqueles que de fato são ruins, poderão ser toleráveis, já que você tem confiança de que pode alterar a situação com seu trabalho, esforço, engenhosidade, paixão, comportamento e escolhas.

Como evitar o sequestro emocional

Faço aqui algumas recomendações para evitar o sequestro emocional e o risco de continuar alimentando sentimentos negativos:

1. Tenha objetivos e metas. Quando você estipula um objetivo que deseja atingir e metas para alcança-lo, aumenta suas chances de agir de forma mais consistente, na direção que gostaria. Um objetivo definido contribui para um maior senso de propósito e pode ser como um balizador para suas ações.

2. Aprofunde seu autoconhecimento. Conhecer o que lhe provoca certas emoções, quais os gatilhos que disparam suas reações indesejadas e o que pode fazer para gerenciá-los é muito importante. Aprenda a desenvolver sua inteligência emocional.

3. Cultive uma mentalidade de crescimento. Como diz uma autora chamada Carol Dweck, é possível escolher adotar uma mentalidade de crescimento em vez de uma mentalidade rígida. Muitas vezes, nosso primeiro impulso diante de um obstáculo ou situação potencialmente estressante é responder com uma mentalidade rígida, algo como “Eu sou assim e pronto, dane-se!” e partir para uma ação destrutiva. Experimente mudar seu pensamento: “Bem, se eu escolhesse encarar essa situação com uma mentalidade de crescimento, como faria?”. Esse tipo de mindset pressupõe que sempre é possível melhorar, modificando seu comportamento e ambiente de forma positiva.

4. Canalize sua atenção para o aqui e agora. Mantenha-se presente no presente. Viver remoendo o passado ou preocupado demais com o futuro faz com que oportunidades e momentos que poderiam ser incríveis sejam desperdiçados. Claro que o passado pode nos ensinar; e é evidente que fazer planos para o futuro pode ser inspirador. Mas, dirigir o tempo todo olhando para o retrovisor ou apenas para o que está muito distante, pode fazer algo que está logo à frente ou bem ao seu lado passar despercebido, seja um buraco na estrada ou uma praia paradisíaca no litoral grego.

5. Não deposite sua expectativa de felicidade em outra pessoa. Querer ser feliz em um relacionamento é algo compreensível, saudável. Depender exclusivamente de seu parceiro para sentir-se bem, estável ou seguro, não. A pessoa que você ama deve complementá-lo e não assimilá-lo feito um Borg (espécie alienígena do universo Star Trek que força uma nociva relação de simbiose com outro ser, assumindo seu controle) e vice-versa. Certo, essa comparação é meio exagerada e faz mais sentido para quem é fã de ficção científica, como eu. Ainda assim, acredito que manter a individualidade e autoestima em um relacionamento a dois seja uma ideia muito válida.

O termo sequestro emocional remete a não estar no controle. Quem é sequestrado, torna-se um refém. Se você parar para observar, verá que tem muita gente que vive como refém das situações, como se nada pudesse fazer a respeito. Acredito muito que é possível buscar viver, cada vez mais, como o protagonista da própria vida. Como quem age conscientemente para ser melhor, sabe aonde quer chegar e encontra coragem para enfrentar seus medos.

Se você gostaria de agir assim, com mais confiança para melhorar os resultados que vem colhendo, desenvolvi um trabalho em que abordo essas questões de forma leve e envolvente, possibilitando muito crescimento pessoal. Para conhecer, clique aqui.

Por fim, desejo que possamos aprender a lidar melhor com nossas emoções para enfrentar os inevitáveis desafios que surgem, mas também para aproveitar a vida. Assim, poderemos colecionar lembranças que nos façam sorrir, seja nas Ilhas Gregas, em Ilhabela ou mesmo compartilhando tranquilos momentos com as pessoas de quem gostamos, em lugares bem simples ou comuns.

Na vida, somos nós que escrevemos a prosa, os versos e as canções.

Douglas Peternela


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