Ele não falava com o pai há anos, mas um FILME mudou isso.


Você já foi fortemente impactado por um filme? Já viu alguém tomar uma importante resolução depois de assistir a uma história contada pelo cinema?

Hoje quero contar um caso real que ilustra como um bom filme pode inspirar e mobilizar para a ação, de forma surpreendente.

Anos atrás, coordenei um treinamento voltado para a implantação de um importante projeto em agências bancárias. Pela abrangência desse projeto, que introduziria modificações tanto na estrutura física quanto no modo de atender aos clientes, o treinamento durava cinco dias.

Meu público, naquela sala de aula em São Paulo, era composto por cerca de vinte gerentes gerais, de diferentes cidades e estados. O curso e o projeto trariam muitas mudanças, e todo esse processo seria conduzido pelos gerentes junto às suas respectivas equipes, quando retornassem às suas cidades.

Eu e as demais pessoas que elaboraram o treinamento achamos que era preciso, antes dos aspectos mais técnicos que seriam abordados, preparar aquelas pessoas para todo esse processo. Precisávamos de algo que criasse um estado mental receptivo às mudanças, que falasse sobre ver as coisas sob um prisma diferente, sobre a importância da flexibilidade e de criar conexão com as pessoas. Sobretudo, algo que acessasse as emoções e sentimentos, além do racional daqueles profissionais. Afinal, verdadeiras mudanças passam por aí: pelo que as pessoas sentem, não apenas pelo que sabem.

“Um FILME seria perfeito!” – pensei. Um bom filme, cuidadosamente escolhido, exibido no momento certo, poderia facilitar o trabalho.

Foi o que fizemos: ao final do primeiro dia, exibimos um filme, na íntegra. Quando terminou, notei várias pessoas com olhos marejados e outras tantas que gostariam de conversar sobre o que viram. No entanto, eu queria que digerissem melhor o que tinham vivenciado. Assim, apenas as despedi, dizendo que começaríamos o dia seguinte comentando o filme.

Naquela manhã de terça, eu esperava que tivéssemos várias observações; mas não tantas. Quase todos tinham algo a dizer sobre a sessão de cinema do dia anterior. Aqueles gerentes, pessoas experientes na vida e no trabalho, queriam contar como tinham sido impactados de diversas maneiras, citar cenas específicas do filme e, enfim, compartilhar como estavam se sentindo, depois daquela experiência.

Percebemos que a escolha, tanto do recurso quanto do título exibido, tinha sido certeira. Conseguimos criar um clima propício para o que iríamos abordar, pois parecia estar claro quanto a empatia, a atenção com os outros e o cuidado em proporcionar experiências positivas a quem servimos são tão importantes, para um líder.

A partir dos comentários feitos e de minhas próprias observações sobre o filme, conduzi várias amarrações com o momento que vivíamos, o trabalho que teríamos pela frente e como cada um que ali estava seria importante para o êxito daquele projeto.

No entanto, percebi que um dos participantes parecia insatisfeito com alguma coisa. Sua linguagem corporal mostrava certa impaciência e sua fisionomia, descontentamento. Na verdade, para um observador atento, era possível perceber expressões que revelavam traços de desprezo e sarcasmo.

Eu poderia ignorar esse fato e prosseguir, pois também tinha percebido que todos os demais pareciam validar o que estávamos fazendo. Poderia pensar algo como “Bem, não se pode mesmo agradar a todos; vamos em frente.” Mas aquele era um grupo pequeno e eu não queria perder o engajamento de um participante, logo no início. Além disso, eu tinha ficado intrigado com aquela reação.

Perguntei-lhe o motivo de seu incômodo. Ele respondeu que nenhum, que estava tudo bem. Chamando-lhe pelo nome (sempre procurei guardar o nome de cada um dos participantes, logo na primeira meia hora) insisti para que falasse livremente.

Então, ele passou a discorrer como achava tudo aquilo um desperdício de tempo. Que assistir a um filme inteiro e depois passar mais de meia hora comentando-o, não lhe parecia a melhor forma de conduzir o treinamento. Queria logo falar do projeto, saber as modificações que teria que implantar em sua agência, ir para a parte prática da coisa. Não via, enfim, nenhum ganho com o que estávamos fazendo.

Escutei tudo atentamente, em silêncio. Eu poderia responder, fazendo uma explanação sobre os preceitos didáticos que nortearam aquela escolha, tentar convencê-lo dos motivos que nos levaram a optar por aquele recurso, de forma racional e embasada em conteúdo. Mas achei que seria mais eficaz deixar o próprio grupo falar. Colocando uma cadeira à frente do semicírculo formado pelos participantes, sentei-me e perguntei se mais alguém compartilhava das impressões do colega.

O que aconteceu em seguida foi notável: todos os que ainda não tinham falado, apressaram-se em relatar quanto o filme lhes tinha sido impactante, provocando reflexões que os fizeram questionar vários comportamentos que vinham adotando, como mexeu com suas emoções e pensamentos, como o acharam, em suma, muito importante.

Um dos gerentes presentes, no entanto, deu um depoimento do qual nunca me esqueci. Pedindo a palavra, disse:

Quero dividir com vocês o que aconteceu comigo ontem. Quando saímos daqui, fui direto ao hotel. Não conseguia parar de pensar no filme, ainda impactado pelo que vi. Ele me provocou profundas reflexões. Então, de meu quarto, telefonei para meu pai e conversamos por vários minutos. Não haveria nada de extraordinário nisso, não fosse o fato de que eu não falava com ele há muitos anos. Depois de uma discussão que tivemos, há muito tempo, nunca mais me aproximei dele. Bem, o filme de ontem me fez repensar tudo isso e ligar pro meu pai. Vamos jantar, hoje à noite.

A sala ficou calada, todos comovidos com o relato do colega; inclusive o participante que discordara da metodologia. Foi ele quem quebrou o silêncio, dizendo, num tom honesto: “Retiro o que eu disse; já vi que estava errado”.

Essa é apenas uma das vezes em que vi um filme despertar atitudes, mudar comportamentos e produzir resultados antes impensáveis. Histórias têm esse poder de inspirar, de mexer com emoções e sentimentos, de ensinar. Histórias contadas com os recursos do cinema, com bons atores, ótima fotografia, aquela trilha sonora que entra no momento certo, tudo sob a condução sensível de um diretor competente, têm impacto ainda maior.

Por isso gosto de utilizar filmes, em meus treinamentos, palestras e cursos. Mesmo uma rápida cena, quando bem empregada, pode ser especialmente interessante para ilustrar um conteúdo que quero passar ou para provocar o estado emocional que favorece o aprendizado e a reflexão.

Recentemente criei um curso online justamente para quem quer aprender ou aperfeiçoar sua habilidade de utilizar filmes em treinamentos, palestras, sessões de coaching ou aulas. Além dos aspectos técnicos de como explorar esse recurso, o programa contém várias sugestões de filmes, séries e documentários que podem ser empregados para ensinar e inspirar pessoas.

Se você ainda não conhece esse curso, clique aqui e veja como é diferente.

Voltando à história do treinamento com a qual iniciei este artigo, posso dizer que foi um sucesso. Os objetivos que havíamos definido foram atingidos e tudo correu muito bem.

Imagino que você tenha ficado curioso sobre qual foi o filme que contribuiu tanto para isso, provocando sentimentos, reflexões e até uma inesperada reconciliação, como contei. E olha que não há nenhuma relação conturbada entre pai e filho, no roteiro. Mas é isso que acontece, quando o filme é rico e utilizado do jeito certo, na hora certa: acaba tendo um alcance que vai muito além do que imaginamos.

Trata-se de The Doctor, que aqui no Brasil recebeu o título de Um Golpe do Destino, um filme de 1991, que, na época do curso, não era tão antigo. Nele, William Hurt interpreta Jack McKee, um renomado cirurgião que acaba repensando a própria vida ao passar de médico a paciente. Se ainda não o viu, recomendo.

Considere a ideia de usar filmes para aprender (ou ensinar!) com mais frequência. Além de entretenimento e diversão, podem proporcionar uma experiência enriquecedora e até surpreendente.

Douglas Peternela

doug@douglaspeternela.com.br


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