Oscar e estrelas Michelin: o que aprender com um diretor da Pixar e um chef premiado?


Há anos, tenho escrito sobre filmes de cinema que, além de entreter, podem ser utilizados como recurso didático, pela riqueza que algumas cenas apresentam. Seja para introduzir um conteúdo em um treinamento, ilustrar determinado ponto de vista em palestras, aulas e reuniões ou mesmo como parte de uma atividade para selecionar candidatos em processos seletivos, a escolha adequada de uma cena pode deixar o trabalho bem mais interessante.

Hoje, no entanto, quero fazer a recomendação não exatamente de um filme, mas de parte do conteúdo dos “extras” de determinado título, em DVD ou Blu-Ray. O costume de sempre verificar esses bônus, que normalmente consistem de making off, entrevistas, cenas deletadas e outros itens, já me rendeu agradáveis surpresas.

Uma delas, é o breve documentário (sua duração é de aproximadamente 10 minutos) chamado Gastronomia e Filmes: Uma conversa com Brad Bird e Thomas Keller, que você encontra no item “bônus” de Ratatoiulle, o longa que levou o Oscar 2007, de melhor animação. Trata-se de entrevistas feitas com dois profissionais de destaque: Brad Bird, um dos principais diretores da Pixar Animation, estúdio de animação que foi comprado pela Disney e detém a façanha de lançar um sucesso após outro; e Thomas Keller, um dos maiores chefs dos Estados Unidos, dono de restaurantes como o French Laundry, na Califórnia, e o Per Se, em Nova Iorque. Embora de ramos distintos, ambos estão à frente de equipes responsáveis por trabalhos de muita qualidade e sucesso.

Bird, que além de escrever e dirigir Ratatouille, foi o diretor de Os Incríveis – outro vencedor do Oscar – fala, entre outras coisas, sobre criatividade e sua relação com a equipe envolvida nos projetos que lidera, procurando extrair o melhor de cada indivíduo.

Keller já teve o French Laundry escolhido como melhor restaurante do mundo em 2003 e 2004. Atualmente, é o único chef americano a ser premiado simultaneamente com três estrelas Michelin para dois restaurantes diferentes. Como bom líder, reconhece que foi sobretudo graças à equipe com quem trabalha que conseguiu acumular tantos louros. No documentário, fala sobre comprometimento, busca da perfeição e a importância de se ter uma ligação emocional com o que se produz para o cliente.

Consegui chamar sua atenção? Saber o que dizem dois profissionais vencedores do prêmio máximo da categoria em que atuam desperta algum interesse, não acha? O ótimo trabalho de edição costura com maestria as duas entrevistas, interligando os dois mundos – Gastronomia e Filmes – de forma fascinante.

Se você fizer parte de uma equipe que tem envolvimento com clientes – internos ou externos – sugiro que exiba o documentário e promova discussões sobre o que há em comum entre o que os dois profissionais dizem, e o dia a dia de sua empresa. A forma como o trabalho acontece, a pressão do tempo, como anda a intenção de proporcionar uma experiência única para os clientes... Penso que pode ser um momento bastante enriquecedor. Na verdade, esse recurso pode ser utilizado para trazer à tona discussões sobre diversos outros temas, além dos mencionados. Liderança, por exemplo.

Para que você possa ter uma ideia do que quero dizer, transcrevi algumas falas extraídas do documentário, classificando-as por temas, que estão logo após este artigo. Talvez você queira, como já fiz, entregar uma cópia para os participantes de seu treinamento ou reunião, depois de exibir o documentário.

Se você não lidera nem faz parte de uma equipe corporativa, ainda assim, leia com atenção e procure assistir ao documentário. Para quem busca o autodesenvolvimento, lições podem vir de áreas tão diferentes quanto a cozinha de um restaurante ou um estúdio de animação. Basta termos, sempre, olhar de aprendiz...

Douglas Peternela

Educador corporativo e palestrante

douglas@douglaspeternela.com.br

www.douglaspeternela.com.br

GASTRONOMIA E FILMES – Uma conversa com Brad Bird e Thomas Keller

Frases

Criatividade:

“O erro que muitos cometem é pensar que se pode forçar ideias. Não dá. Só o que se pode fazer é observar que tipo de ambiente aciona seu lado criativo e tentar criar esse ambiente.” (Brad Bird)

“A comida pode ser muito inspiradora. Ela vem crua. Você pensa: Tudo bem, o que vou fazer com isso? O que vemos quando tentamos definir um prato? Pensamos no produto final. O que queremos ver em um prato? O que queremos sentir? O que queremos cheirar? Que gosto sentir? Aí fazemos o caminho contrário, estabelecendo técnicas variadas ou produtos variados que iremos usar que vão resultar naquilo”. (Thomas Keller)

Espontaneidade:

“(...) Como poder fazer esse prato parecer espontâneo várias vezes, sem que se torne repetitivo para você? Acho que é nossa responsabilidade, como cozinheiros, nos certificarmos de que cada prato que fazemos seja algo tão novo e dinâmico como a primeira vez que o fizemos”. (Thomas Keller)

“Animação é do mesmo jeito. Não é um ato espontâneo; mas se o fizer com arte, fica com o sentimento do pensamento espontâneo.” (Brad Bird)

Comprometimento: “Eu baseio muito da nossa organização no restaurante Taillevent, no meu mentor, Jean-Claude Vrinat. Ele é extraordinário. Toda manhã eu ia até o pátio e olhava para a janela do seu escritório e ele sempre estava lá. Também toda a noite, quanto eu saía, ele estava sempre lá. Você olha para isso, e para o exemplo de pessoas assim e compreende o que os faz serem grandes. É o comprometimento.” (Thomas Keller)

“A questão é olhar para si mesmo e dizer: Estamos satisfeitos com o que fizemos? Fiquei satisfeito? É assim que medimos nosso sucesso.” (Thomas Keller)

Busca da Perfeição:

“Não é uma questão de perfeição, mas da busca dela. Essa é a motivação.” (Thomas Keller)

“É como tudo o que se faz na vida. O que o faz ser melhor? O que faz de você melhor que o outro? É a sua compreensão do que está fazendo e a capacidade de modificá-lo, melhorá-lo um pouco. A forma como se arruma... Não é só pôr a comida no prato. É preciso refinar a aparência, olhar, pensar, certificar-se de que está perfeito.” (Thomas Keller)

Liderança e Motivação:

“Acho que o que se tenta fazer é fazer as pessoas se empolgarem com o que te empolga. Adoro capturar momentos e adoro tentar alcançar novos padrões. E se eu conseguir fazer alguém ver esse alvo (...) se se arriscarem um pouco mais, podem fazer a cena que ninguém mais fez. Se puder fazê-los sentir isso, eles alcançam essa empolgação extra, e sentem-se maravilhosos depois. Tantas pessoas têm grandeza em si, entende? É só ensiná-las a deixar que ela venha à tona”. (Brad Bird)

“Se tentar controlar demais o processo, vai limitá-lo. Quero dizer, tenho uma boa ideia do que quero, mas não acho que crio uma atmosfera onde as pessoas não podem opinar, dar ideias, porque frequentemente as pessoas vêm com ideias maravilhosas que vão melhorar o filme, e seria uma idiotice não aceitá-las.” (Brad Bird)

“Acho que uma das coisas mais motivadoras é dar exemplo. Seu legado é, na realidade, ser capaz de transmitir a alguém as tarefas, a filosofia, a cultura que estabeleceu para si mesmo.” (Thomas Keller)

“Quero que as pessoas se empolguem com o meio. Quero que se orgulhem do trabalho final. E seu eu puder incentivar esse sentimento em relação ao filme, ao meio e ao trabalho, sentirei que estou fazendo algo bom, pois eu adoro este meio. (Brad Bird)

Pressão do Tempo:

“Temos placas que dizem: Senso de Urgência. E é tão importante que, a partir da hora em que vai trabalhar, fica com essa frase na cabeça. Isso garante que fique concentrado na tarefa, que vai concluí-la e partir para a próxima.” (Thomas Keller)


“É a pressão da situação que o faz alcançar uma performance melhor. Há um senso de energia e é essa energia, essa empolgação, que o faz trabalhar muito melhor sob pressão.”(Thomas Keller)

Sentido do Trabalho, Visão do Todo, Sinergia:

“Tenho um mentor, Roland Henin, que conheci no início dos anos 70. Ele me fez compreender que havia uma ligação emocional, que eu estava cozinhando para alguém, de forma a proporcionar-lhe prazer. E foi esse momento que mudou meus pontos de vista sobre o que estava fazendo e por quê.” (Thomas Keller)

“É uma ligação emocional; quando se tem essa ligação emocional com o que faz com a comida, tem-se uma ligação com os fregueses, com seus funcionários e com o fornecedor. Estão todos juntos. Estão todos em sincronia.” (Thomas Keller)


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