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  • Douglas Peternela

Quando o prato é perfeito e a apresentação, incrível


Tente lembrar-se da última vez que você assistiu a uma palestra ou participou de um treinamento. Você aprendeu algo novo? Teve acesso a um conceito ou ideia que lhe fez enxergar determinado assunto de forma diferente? Sentiu vontade de mudar sua forma de agir, em algum aspecto de sua vida pessoal ou profissional?

Se nenhuma dessas coisas aconteceu, talvez não tenha sido uma experiência muito relevante, não acha? Afinal, a essência de um evento dessa natureza deve ser primordialmente a de agregar valor, de alguma forma. Quando isso não ocorre, pode-se dizer que o palestrante ou condutor do treinamento, em certa medida, falhou.

Talvez alguém pergunte: " E o público, não teria uma parcela de culpa, nisso? Se a plateia for, por exemplo, desinteressada ou distraída, não seria responsável por não conseguir aprender, ter ideias ou sentir-se inspirada para agir?"

Sendo bem direto: não.

Quando a atendente da padaria ou o caixa do supermercado que você frequenta lhe atende com indiferença ou falta de cortesia, de quem é o erro? Do funcionário? Em minha opinião, a falha é de seu gerente, encarregado, supervisor ou como quer que seja o nome do cargo do gestor imediato dessa pessoa.

O líder da equipe é quem deveria fornecer treinamento, acompanhar, dar feedback e incentivar um atendimento gentil e atencioso por parte de seus atendentes. Deveria conhecer os integrantes de seu time e engajá-los quanto à importância de criar uma cultura de servir, com qualidade.

Da mesma forma, quando o público sai de um evento em que deveria ter uma clara percepção de valor agregado e isso não acontece, o erro é de quem o conduziu, não dos participantes.

O profissional de treinamento ou palestrante é quem pode ter falhado no planejamento – seja não buscando conhecer o tipo de público para quem iria falar, seja não selecionando um conteúdo ou mensagem adequada a ele – ou na execução, por não ter tido sensibilidade para perceber a reação das pessoas e flexibilidade para fazer ajustes em sua comunicação.

Isso para citar apenas dois aspectos que podem influenciar drasticamente o sucesso de um treinamento, palestra ou aula. A verdade é que, conduzir eventos dessa natureza não é tarefa pouco desafiadora, e nem de longe tão simples quanto algumas pessoas parecem acreditar. Ter uma boa ideia, conceito ou mensagem, não basta. É preciso saber criar conexão com as pessoas, para que entrem em um estado receptivo e se abram para o que você quer compartilhar.

Tenho algumas recomendações de como isso pode ser feito. Para dividi-las com você, permita-me fazer uma comparação a partir de um universo de que gosto bastante: a gastronomia.

Um treinamento ou palestra é como um prato

Você certamente já viu pela TV uma refeição que desperta o desejo de prová-la. Daquelas que lhe faz exclamar algo como: "Humm, se pudesse, eu comeria isso agora!”.

O que provoca essa reação? Não é apenas a qualidade dos ingredientes utilizados, o processo de cocção ou a combinação de texturas e sabores; o aspecto visual também conta. É a chamada apresentação do prato.

A forma como a comida é servida é extremamente importante para a percepção de valor de um cardápio, no mundo da alta gastronomia. Os melhores chefs preocupam-se com a qualidade da apresentação de suas criações tanto quanto com o sabor delas.

Porém, se uma bela apresentação pode contribuir para um prato bem feito receber ótimas avaliações, é bem verdade que uma apresentação fantástica pouco pode fazer para salvar um prato insosso.

O ideal é que os dois fatores estejam presentes: um prato saboroso, com um visual elegante, que traduz todo o cuidado e carinho com que foi preparado. No entanto, se for preciso optar por um deles, é claro que o sabor deverá ser o privilegiado.

Comparo essa experiência de criar e servir um prato com a de desenvolver e ministrar um treinamento ou palestra. O conteúdo é como a comida, o prato em si: deve ter consistência, alimentar a mente, fornecer energia, ser combustível para novas ideias, inspirar. Deve ter certa harmonia e ser elaborado de acordo com as necessidades do público que irá usufrui-lo.

A “apresentação do prato” é a maneira como a mensagem é desenvolvida, a forma como o conteúdo é servido à plateia. Se for exageradamente formal, técnica ou carregada com informações excessivas, por exemplo, a apresentação tornará o conteúdo pouco digerível.

É o que acontece com profissionais que conhecem muito de sua área de atuação, dominam completamente o tema sobre o qual falam, mas pecam na maneira como o expõem. Não utilizam técnicas ou recursos que poderiam tornar seu trabalho muito mais compreensível, apreciado e inspirador. Por não conseguirem estabelecer conexão com seu público, terminam não atingindo o potencial transformador que sua mensagem teria, caso tivesse sido apresentada de outra maneira.

Por outro lado, uma palestra cheia de “pirotecnias” ou recheada de momentos engraçados, mas com conteúdo raso, é como aquele prato cuja apresentação é chamativa, mas não tem sabor, não satisfaz. Não alimenta, de fato.

Claro que momentos de humor ou emoção podem ser muito bem-vindos, dependendo do contexto. Exagerar na dose, porém, pode afetar a percepção do todo, como acontece com um cozinheiro que carrega a mão em certo tempero e acaba comprometendo o sabor do prato. Equilíbrio e harmonia são bem-vindos, seja na mesa ou no palco.

Conteúdo relevante entregue de forma envolvente Assim, uma boa palestra ou treinamento combina conteúdo relevante, pensado e planejado para agregar valor às pessoas que irão recebê-lo, com uma apresentação envolvente, que seja estimulante e que prenda a atenção. A ausência de um desses dois componentes pode prejudicar os resultados que se espera obter, para todos os envolvidos.

Então, quando você participar novamente de um evento, fique atento. Como alguém que se senta à mesa de um bom restaurante esperando ser muito bem servido, analise se haverá coerência e consistência entre o teor do que lhe oferecerão e a forma como isso se dará.

Agora, se você atua como profissional de treinamento e palestrante (ou gostaria de fazê-lo) e seu papel, portanto, é o de quem serve as pessoas, aqui estão algumas recomendações breves, que podem ajudá-lo a criar uma experiência memorável para sua plateia:

  1. Prepare conteúdo adequado ao público para quem vai falar. Procure obter informações sobre as pessoas que participarão do evento. Quem são elas? O que fazem para ganhar a vida? Qual a faixa etária média? Haverá mais mulheres ou homens? Qual o grau e conhecimento que possuem sobre o tema que você irá abordar? Então, adeque seu conteúdo e mensagem a essas pessoas, não ao que você talvez quisesse falar. Elas devem ser o foco, não você.

  2. Pense na transformação. Qual seria a principal necessidade (ainda que suposta) dessas pessoas e como você poderia contribuir para atendê-la? O que elas precisam aprender? Qual a transformação que sua mensagem pode provocar? Pergunte-se: "De que maneira essas pessoas estarão melhores, quando eu terminar meu trabalho?".

  3. Cuide da apresentação. Não negligencie esse ponto; você deve dedicar-se à apresentação. Seu conteúdo pode ser ótimo, mas se você não conseguir torná-lo atraente de alguma maneira, talvez não consiga sequer que as pessoas ouçam o que você tem a dizer. Uma vez estruturados os principais pontos que você irá abordar, imagine como fazer isso de forma envolvente. Quais recursos você poderia utilizar para tornar sua mensagem mais eficaz? Histórias, cenas de filmes, dinâmicas, textos, imagens, músicas... Existem múltiplas possibilidades.

  4. Fique atento e seja flexível. Mesmo que você tenha contemplado em seu planejamento todos os aspectos dos tópicos anteriores, fique atento à maneira como as pessoas reagirão, na hora da execução. Pode ser necessário mudar um pouco as coisas, seja adiantando algo que você tinha planejado fazer somente mais tarde, suprimindo ou acrescentando uma atividade (em treinamentos, tenha sempre uma atividade extra, como uma carta na manga) ou ilustrando com mais um ou dois exemplos determinado ponto. Isto é, seja flexível, se perceber que a situação assim requer.

Como já disse, ensinar e inspirar não é tarefa simples; mas é algo que pode ser aprendido, praticado, refinado. Também pode ser extremamente recompensador, de diversas formas.

Por sinal, se você já atua na área ou tem vontade de começar a fazê-lo, farei um evento presencial inédito sobre esse tema, nos próximos dias. Chama-se "Formação Flamma de profissionais de treinamento e palestrantes criativos". Se lhe interessar, clique aqui e conheça a proposta.

Termino recorrendo uma última vez à comparação com o mundo da gastronomia. Quando bem pensados e executados perfeitamente, há pratos que causam uma reação emocional em quem o prova, extrapolando sua finalidade básica, que é a de alimentar.

Desejo que você também possa provocar isso, com seu trabalho ou atividade a que se dedica. Mais que atender e satisfazer, que você possa surpreender, encantar e criar experiências marcantes para as pessoas que tiverem contato com o que você produz.

Douglas Peternela


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