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  • Douglas Peternela

“Eu não tenho tempo.” Verdade ou desculpa esfarrapada?


As coisas que realmente poderiam fazer diferença nos resultados na vida pessoal e profissional, são as que costumam ser postergadas ou interrompidas, por “não termos tempo” para elas. Pelo menos, é uma das desculpas mais utilizadas.

“Gostaria de ler aquele livro que comprei, mas não tenho tido tempo”.

“Eu precisava tirar um tempo para planejar minhas metas para o próximo ano, mas agora não dá.”

“Sei que preciso fazer exercícios físicos, mas não estou conseguindo tempo para isso.”

“Se fizesse aquele curso, certamente teria mais chances de conseguir uma promoção; mas, quando?”

“Preciso ir ao médico, mas nesta semana e na próxima, sem chances. Quem sabe no próximo mês eu consiga.”

“Estou devendo uma visita à sua casa, né? Mas ando tão corrida, menina...! Com quantas semanas sua filhinha está mesmo? Jura? Seis meses, já?”

Toda atividade que envolve planejamento, aquisição de conhecimento, aperfeiçoamento de habilidades, manutenção da saúde e de relacionamentos, está em uma área chamada de importante, pelos autores que abordam gestão do tempo. São assim classificadas, porque têm potencial para impactar positivamente seus resultados e bem-estar, em longo prazo.

A área que suga a maior parte do tempo de muitas pessoas é a da urgência. As atividades que estão nessa área não permitem adiamentos: se algo é urgente, tem que ser resolvido imediatamente, não dá mais para esperar. O problema é que coisas que antes eram importantes, tornam-se urgentes, por terem sido postas de lado.

Um dente doendo, é um bom exemplo. Ir ao dentista preventivamente, para fazer a manutenção de seu tratamento ou logo após aquela obturação ter caído pela mordida entusiasmada no torresminho, seria algo importante. Mas a pessoa vai deixando para depois, dizendo a si mesma que não tem tempo, até que num belo dia sente aquela fisgada de gelar a medula. Pronto! Aí, não tem jeito: com o dente doendo insistentemente, o indivíduo liga afoito para o consultório dentário e pede para a secretária conseguir um horário de qualquer jeito, porque – adivinhe – é urgente.

Geralmente, as atividades classificadas como urgentes não ajudam ninguém a melhorar. Na verdade, atrapalham, pois, quando você está resolvendo uma urgência, interrompe ou adia uma ação importante, que poderia lhe agregar valor. Detalhe: uma pessoa só consegue diminuir o quadrante ou esfera (o termo muda conforme o autor) da urgência justamente quando investe mais tempo no que é importante, já que planejamento, estudo e melhorias estão nessa área.

Há um ponto que sempre abordo, quando estou trabalhando o tema Gestão do Tempo, em meus treinamentos: costumamos dizer que, para conseguir empregar o tempo necessário para determinada atividade que queremos praticar, é necessário ter disciplina. “Gostaria muito de aprender outro idioma, mas me falta disciplina para isso.”

Acontece que a palavra “disciplina” deriva de “discípulo”, do latim “discipulus” – aluno, aquele que aprende; do verbo discere, (aprender). O que é um discípulo? É alguém que decide aprender algo, seguir uma filosofia ou um mestre; por vezes, deixando todo o resto para fazer isso. Alguém que se dedica muito; que tem disciplina.

Sempre digo que, se você diz não ter disciplina para fazer alguma coisa, é que ainda não se tornou discípulo dela; ainda não está totalmente convencido de sua importância para sua vida. Afinal, quando a gente realmente compra uma ideia, dá um jeito e consegue o tempo para fazê-la.

Então, quando você se flagrar dizendo que lhe falta disciplina para certa atividade, pergunte-se: “Será que eu acredito nisso de verdade?” Caso você honestamente responda que sim, então precisa dar um jeito de conseguir tempo. Desculpas não farão você progredir. E como fazer isso?

A dica é extrair tempo de outra área, em que estão as atividades que não são nem urgentes, nem importantes. Christian Barbosa a chama de Circunstancial. Eu a apelidei de Mundo da Cigarra – uma referência à fábula em que a Cigarra, ao contrário da Formiga, só pensava em aproveitar a vida, sem se preparar para o inverno que chegaria.

É que nessa área estão as coisas fúteis, mas prazerosas, a que praticamente todos nos rendemos às vezes, em menor ou maior grau. Assistir a programas na TV, navegar na internet, jogar videogames, passar o dia na cama ou sofá, ir a festas ou reuniões sociais. Veja bem, não há nada de errado em fazer esse tipo de atividade; o problema pode ser a quantidade de tempo gasto nelas.

Talvez você diga: Mas lazer é importante! Concordo plenamente. Lazer é importante. E, como tal, deveria ser algo planejado, com um tempo definido, dentro de uma rotina saudável; fazer parte, enfim, da esfera do que é importante, não circunstancial. Dar uma passadinha ao Mundo da Cigarra é normal e até aceitável; mas nele permanecer várias horas, certamente roubará um tempo precioso que você poderia dedicar a algo que seja relevante, para seu crescimento.

Por isso, minha sugestão é analisar quais dessas atividades podem ser reduzidas ou mesmo canceladas para gerar um bloco de tempo que lhe permitirá dedicar-se a algo que você considera importante. Assistir a um episódio daquela sua série favorita em vez de dois, podem lhe render 40 minutos para ler um livro importante para seu desenvolvimento. Passar menos tempo nas redes sociais, jogando videogames ou conversando banalidades pelo Whatsapp, talvez lhe permita fazer um curso, uma caminhada ou aprender a tocar aquele seu violão, abandonado há tanto tempo.


Em um mundo de desigualdades, o tempo é recurso igual, para todos. Observe alguém que você admira pela quantidade de coisas que faz e tente entender como essa pessoa consegue isso. Aposto que é escolhendo mais atividades que realmente importam, em vez das urgentes ou banais.

Pare de falar que não tem tempo. Toda vez que você usa essa expressão, está na verdade dizendo que a coisa ou pessoa não é realmente importante para você, e por isso não mereceu seu tempo. Em vez de dar essa desculpa, não seria mais sábio tentar mudar esse padrão?

Experimente: liste até três atividades que você sabe que, se praticadas, trarão resultados superiores para você, seja na vida pessoal, seja no trabalho. O que você considera importante, mas vem adiando? Escolha apenas uma, inicialmente. A seguir, liste coisas que você tem feito, mas admite que não são nem importantes, nem urgentes. Qual delas pode ser reduzida ou eliminada, permitindo-lhe alocar seu tempo para a atividade importante que escolheu praticar?

Comece pequeno. Cada progresso obtido, ainda que sutil, lhe dará mais ânimo para tentar novas mudanças.

Douglas Peternela


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